terça-feira, 31 de março de 2009

Ensaio sobre a Transcendência

Uma das características marcantes do ser humano, algo que conseguimos enxergar como o que nos separa do restante dos seres vivos no planeta, é a maneira como nossa mente funciona. Consideremos dois mecanismos que são de suma importância para essa diferenciação: a capacidade de entender o mundo como algo constituído de causas e efeitos (causalidade) e o desenvolvimento de uma linguagem capaz de abarcar conceitos complexos e abstratos, incluindo o uso da metalinguagem (poder falar do próprio falar).

Enxergar a causalidade possibilita tirar conclusões muito práticas, mesmo que nem sempre acuradas, sobre o mundo ao nosso redor e é algo que parece ser inato, pois nos vem naturalmente o ato de enxergar um efeito e procurar sua causa, ou tentar causar alguma coisa buscando um determinado efeito. Todo e qualquer ato humano possui esse pano de fundo, qualquer pessoa é capaz de e justifica suas ações dessa maneira, mesmo que não esteja consciente de todas as causas ou de todos os efeitos (desconhecidos ou inconscientes).

A inclusão de uma linguagem complexa nessa equação é o que permite a interpretação e o pensamento coletivos sobre a causalidade em níveis únicos no planeta, o que nos torna excepcionais seres inquiridores e produtores de causas capazes de abarcar todo o universo. São características criadoras no sentido mais forte da palavra, pois dão forma e limite à nossa cognição, à maneira como nos relacionamos com o todo, e consequentemente também às nossas ações. Este próprio ensaio é uma maneira de busca e ação baseada nessa complexa teia de causalidade.

Os benefícios dessa combinação aparecem de maneira clara e maravilhosa nas diversas culturas de todo o mundo, em todas as relações humanas entre si e o mundo que nos possibilitaram ter esse exato ponto de vista, aqui e agora. É importante lembrar, no entanto, do grande problema que resulta dessa relação: a angústia que nos aflige por não encontrarmos, com absoluta certeza, as causas de todos os efeitos que percebemos e por não podermos predizer, com essa mesma certeza, os efeitos das causas que criamos. De maior importância ainda é a nossa incapacidade de aceitar com facilidade essas conclusões sobre a imprevisibilidade do universo e a finitude da compreensão humana sobre ele, ou seja, de que não podemos escapar dessa “moldura”.

... ou podemos?

Estas conclusões sobre o ser humano não são novidade, o que difere é a aproximação a esse dilema. As respostas mais comuns estão relacionadas à aceitação irrestrita dessa condição, às vezes chamada de estóica, seja ela de fundo científico através de um ponto de vista fundamentalista do materialismo metodológico, seja ela de fundo religioso ou espiritual pela entrega completa à própria causalidade (karma) ou a uma ou mais divindades.

A outra aproximação é frequentemente nomeada como a busca pela transcendência, uma maneira de escapar ou sublimar a causalidade, algumas vezes literalmente. Os métodos para alcançar esse objetivo diferem, mas todos possuem um ponto em comum que se resume a alterar o funcionamento regular dos processos mentais para atingir um estado diverso de consciência, modificando o cérebro humano usando de sua inata plasticidade, de nossa capacidade de modificar as sinapses neurais. Dito de outra maneira, utilizando a causalidade para sair dela própria.

Essa alteração dos processos mentais envolve a modificação da mecânica da cognição, buscando simplesmente “ser”, “existir” ou apenas “perceber” sem categorização ou interpretação, ou seja, sem a mediação da linguagem e do discurso, responsáveis pelo estabelecimento da separação entre o “eu” e o “outro” no espaço-tempo. Mesmo que não seja um estado permanente da consciência é uma experiência descrita como radicalmente transformadora, pois a sensação é de uma união profunda e sem igual com a totalidade do universo.

Independente de ser uma real libertação da nossa realidade manifestada, em que por breves momentos a dualidade se desfaz e o universo volta a ser “um”, ou apenas um estado de funcionamento diverso do cérebro humano, estas são descrições de períodos distintos da humanidade sobre algo que precisa ser vivenciado e não somente debatido. Ambas são visões inspiradoras e belíssimas sobre a capacidade humana de guiar sua transformação num mundo de constante dialética... belezas diferentes, mas que chegam à mesma epifania.